O protagonismo das pessoas com deficiência e a necessidade de transformar as bibliotecas em espaços verdadeiramente acessíveis deram o tom do painel "Nada Sobre Nós Sem Nós: Pessoas com Deficiência e o Futuro das Bibliotecas em Mato Grosso", realizado na tarde desta quinta-feira (30), durante o Encontro Presencial de Culminância e Encerramento do Programa de Capacitação para o Fortalecimento do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas de Mato Grosso, em Cuiabá.
A atividade reuniu representantes do Conselho Estadual da Pessoa com Deficiência, da Superintendência da Pessoa com Deficiência e profissionais da área para discutir inclusão, acessibilidade e a construção de políticas públicas voltadas às bibliotecas.
Uma das participantes do painel, a conselheira do Conselho Estadual da Pessoa com Deficiência (Coned), do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência de Cuiabá e coordenadora da Frente Estadual da Pessoa com Deficiência, Jandira Socorro da Silva, compartilhou sua trajetória e destacou que a inclusão deve ser compreendida como uma pauta de toda a sociedade.
"É um prazer muito grande estar aqui com vocês. Eu não nasci com essa deficiência, eu adquiri a perda da visão, já adulta. Percorri vários médicos, e descobri ter uma retinose e tive que enfrentar uma mudança drástica na minha vida. Isso é possível que ocorra com qualquer um de nós. Então falar da pauta da inclusão é super importante e precisa ser falada cada vez mais. Eu percebi que eu posso fazer a diferença mesmo sem enxergar e as pessoas com deficiência podem ser felizes, podem estudar, podem se graduar. O nome enfrentamento é uma escolha que você faz de dar a volta por cima e assim iniciou a minha luta."
Representando a Superintendência da Pessoa com Deficiência, Maria Aparecida da Silva ressaltou que a acessibilidade começa pela mudança de olhar e pela construção de ambientes preparados para receber todas as pessoas.
"Quando eu comecei a trabalhar na Superintendência da Pessoa com Deficiência eu aprendi que devemos olhar as pessoas com mais empatia. Adentrar os lugares e ver se existe ali acessibilidade para todos. Hoje meu cuidado vai além do meu, para que todos tenham a sua vez e voz."
O psicólogo do CAMED e representante do Conselho Regional de Psicologia, Wellington Camorso, também relatou a própria experiência após adquirir uma deficiência na vida adulta. Segundo ele, foi durante a graduação que percebeu a importância das adaptações e da luta pelos direitos das pessoas com deficiência.
"Eu não nasci uma pessoa com deficiência, mas a deficiência nasceu comigo e se manifestou depois de adulto, em forma de paralisia nas pernas. Eu precisei solicitar à faculdade adaptações necessárias para concluir minha graduação. Foi ali que eu entendi como o controle social impacta e é importante na nossa vida. A partir dali eu vesti a camisa e, de fato, encarei a luta. Acessibilidade jamais será um favor, é um mecanismo de luta e de direitos humanos."
Durante o debate, os palestrantes defenderam que a inclusão nas bibliotecas deve ir além da eliminação de barreiras arquitetônicas, envolvendo também o acesso à informação, aos acervos, aos serviços e à participação das pessoas com deficiência na construção das políticas públicas. O consenso entre os participantes foi de que garantir bibliotecas acessíveis significa assegurar o direito à leitura, ao conhecimento e à cidadania para todos.