A etapa presencial de encerramento do Programa de Capacitação para o Fortalecimento do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas de Mato Grosso começou nesta quinta-feira (30), em Cuiabá, reunindo representantes de 121 municípios para dois dias de debates, troca de experiências e certificação. A abertura foi marcada pela palestra magna da bibliotecária Cleide Fernandes, coordenadora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de Minas Gerais, que defendeu a construção de bibliotecas verdadeiramente inclusivas, capazes de acolher pessoas com deficiência e diferentes perfis de leitores.
Ao abrir sua apresentação, Cleide destacou a importância do encontro e agradeceu às instituições responsáveis pela formação. "É um evento muito importante estar com vocês. É a primeira vez que faço uma palestra magna. Quero agradecer ao Instituto Saberes, à Secel, ao Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e a todos que participaram desse percurso, pois nada é feito sozinho. Todos estamos aqui numa construção, numa trincheira, e esse encontro vai encerrar o curso", afirmou.
Com o tema "Quem não lê conosco?", a bibliotecária propôs uma reflexão sobre os obstáculos que ainda afastam parte da população das bibliotecas públicas. Segundo ela, a questão vai além das pessoas que nunca frequentaram esses espaços e inclui também quem não se sente acolhido ou encontra barreiras físicas e sociais logo na entrada.
"A pergunta não procura culpados isoladamente enquanto indivíduos, mas examina a relação entre a biblioteca e a sociedade em que está inserida", explicou.
Durante a palestra, Cleide ressaltou que a acessibilidade não se resume à instalação de equipamentos ou adaptações estruturais. Para ela, a qualificação dos profissionais é tão importante quanto os recursos físicos.
"Um recurso de acessibilidade não garante sozinho uma experiência de leitura. Uma biblioteca pode ter mecanismos de acessibilidade e, ao mesmo tempo, não ser acessível. Por isso, os profissionais precisam estar capacitados para atender e saber melhor lidar com os leitores", destacou.
Como exemplos, ela citou situações comuns encontradas em bibliotecas. "Pode ter livros com acesso em Libras, mas não ter ninguém que saiba orientar o leitor. Pode haver uma rampa e ter móveis atravessando o caminho. Diversas questões precisam funcionar no dia a dia, e não somente em datas especiais."
A palestrante também lembrou da biblioteca que frequentava na infância e que despertou sua paixão pela profissão, mas afirmou que o conceito desses espaços evoluiu ao longo do tempo.
"A biblioteca que eu conheci na infância, que me inspirou a seguir a profissão, era uma sala cheia de livros, da Barsa, e era muito boa. Mas a biblioteca que queremos hoje é uma biblioteca para todos."
Cleide ainda ressaltou que os participantes representam realidades muito diferentes em Mato Grosso e que cada município enfrenta desafios específicos. Segundo ela, enquanto alguns profissionais têm autonomia para promover mudanças, outros precisam superar limitações impostas pela estrutura administrativa e pelas burocracias da gestão pública.
A programação do primeiro dia prossegue com o painel "Nada Sobre Nós Sem Nós: Pessoas com Deficiência e o Futuro das Bibliotecas em Mato Grosso", reunindo representantes do Conselho Estadual da Pessoa com Deficiência, da Superintendência da Pessoa com Deficiência em Mato Grosso e da Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça para discutir políticas de inclusão e acessibilidade nas bibliotecas do estado.
O encontro será encerrado nesta sexta-feira (31) com apresentações sobre as ações dos sistemas estadual e nacional de bibliotecas públicas, debates sobre modernização dos espaços, entrega de Moções de Aplausos aos municípios que implantaram seus Planos Municipais do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas e a cerimônia de certificação dos participantes do programa.